Domingo, Abril 8

Equinócio da Primavera

20 Março, hoje, 5h14.

Dia e noite iguais

Entrada na Primavera

Saída do Inverno

Diz-se...

Mas...

Como vai embora quem não chegou?

Como chega alguém que não partiu?

Como se transita, se muda, num espaço de mistura?

Como se espera o que já veio?

Como nos despedimos do que não tivémos?

E...

Como se gere a inquietação de não sentir a mudança

tão habitualmente esperada e gradualmente visivel?

Como deixamos ir o que não fomos sentindo

ou aquilo que não foi efectivo ou intenso o suficiente para querer dizer adeus?

Pois...

Chegou a Primavera... diz o calendário.

Vai-se o Inverno, diz que sim.

Mas aquilo que acredito é que o Inverno e a Primavera estão apaixonados...

ela foi chegando só para estar perto dele

e agora ele vai ficando para não sentir saudades dela...

E vamos, nós, comuns mortais, ter os dois perto, misturados, brincando com as transições seculares que regulam a nossa vida!

A paixão tem destas coisas...

Quinta-feira, Fevereiro 2

Ana & a palavra Sabedoria

Sabedoria – palavra que vem do Latim SAPERE, “saber, sentir o gosto de”


A Sabedoria é a nossa maior construção pessoal. Há dias em que não duvido.



Sabedoria….

Doce sabor de saber que a vida se faz dos momentos.

Terno sentir por nos construirmos nas mãos do tempo.

Sabor feito e refeito nos espaços que ficam entre pensamentos e acções.

Sentir percebido na distância que une os passos no caminho de cada um.

Sabedoria é magia.

Que se saboreia só por existir.

Que se sente quando se constrói.

Mágico é conseguir a sabedoria.

Sabedoria é saber que o desequilíbrio é apenas um momento de inicio,

Que a dor abre espaço para a serenidade,

Que a saudade se preenche,

Que as recordações são o chão do futuro.

Sabedoria é a possibilidade de sentir o gosto, o cheiro, a luminosidade, o toque.

Onde quer que esteja a sensibilidade da nossa existência.

Sabedoria é constatação, paz, tranquilidade.

É um momento, fugaz que se esfuma na direcção de outro e deixa no ar essa incerteza.

Serei um dia sábio?

Ana & Darwin

“It is not the strongest of the species that survives, nor the most intelligent that survives. It is the one that is the most adaptable to change.” - Charles Darwin

Uma das mninhas figuras da história do Homem, do Mundo e da Vida. Que me faz pensar que a Sabedoria é a nossa maior construção pessoal.

Terça-feira, Janeiro 24

Ana & Picolino


A vida fica sempre para além do real.

E garantidamente é na linha que reune os nossos olhares que vamos encontrar o que nos preenche.

Nesta cumplicidade sem consciência em que o movimento e os corpos se moldam no mesmo desejo de entender e procurar.

Não há como estar e sentir. E assim seguir em frente, lado a lado, mesmo quando assim não é.

E dizer-te pela presença do estar que há caminhos que se cruzam e não descruzam mais, que há linhas que se enlaçam e que prendem o teu olhar no meu.

E poder estar perto e sentir o teu calor e dar-te a mão, tocando o teu receio, a tua inquietação com a presença do mundo.

Deixa que esta cumplicidade se solte, deixa que o teu receio se desvaneça e as linhas que procuramos se suportem.

E assim que os trilhos permaneçam.



Segunda-feira, Outubro 3

O João Miguel fez 4 anos

O meu sobrinho mais novo fez 4 anos. No regresso da festa lembrei-me deste texto que escrevi no verão de 2009. E aqui fica especialmente como uma homenagem aos meus pais que deixaram em nós a marca de ser uma família grande e uma grande família. Parabéns, João.


A propósito da felicidade de pertencer a uma família grande e a uma grande família. A propósito também da necessidade de termos quem nos sonhe na vida, quem nos projecte no futuro e quem, assim, nos guie nos afectos e nos desejos.

Este texto, escrevi-o numa tarde de Agosto, em férias familiares. Surgiu como relato de uma conversa no final da refeição. Uma daquelas conversas que só é possível ter no seio de uma família grande, que demora à mesa e tira prazer de falar enquanto se come. Uma conversa, só possível no seio de uma grande família em que existe o hábito da partilha.

Esta conversa fez-me pensar o quanto é importante para uma criança, poder encontrar um espaço onde alguém a sonhe no futuro. Desde mesmo antes de nascer. A ideia de vida futura, criada por alguém significativo e oferecida a alguém com significado é um dom inigualável. Destas projecções, desejos e sonhos, nasce o caminho que cada um de nós seguirá (mesmo que não seja realmente igual ao pensado). Sem desejo, projecção ou sonho, as crianças não encontram um espaço onde se revejam, onde se observem, onde possam medir as suas acções e ter ecos dos seus pensamentos.

Na vida de cada criança, o papel dos adultos de referência é emprestar-lhes os seus pensamentos, os seus sentimentos e os seus desejos de futuro. Para que elas possam criar o seu próprio pensamento, sentimento e desejo de crescer. Os adultos são os "ecos" que não repetem, os espelhos que devolvem imagens diferentes e que assim transformam sinais em vida partilhada

"À volta da mesa, depois do almoço. Somos muitos: grandes (uns adultos e outros a caminho disso), médios, pequenos e bebés (sim, também conversam…). Fala-se do futuro. Futuro imaginado, desejado para cada um deles. Desejado por nós, os grandes já adultos, que os olhamos daqui do futuro que é o deles. Eles (todos), entrando na conversa. Animados com a ideia de ter um futuro desejado por alguém. E como é importante ter quem deseje um futuro para nós e nos projecte, qual foguetão, numa ida e vinda rápida ao mesmo. Os futuros estão ali, em volta da mesa, nos risos trocistas e nos olhos brilhantes que dizem: “E se pudesse ser verdade?”. Mil futuros que se coordenam, se encontram lá para a frente no tempo e se transformam em histórias de poder continuar juntos. E assim se tecem desejos.

O futebolista, imaginado a partir dos fabulosos pontapés que dá numa bola minúscula, com o seu pé pequeno e gorducho de bebé de ano e meio; o alpinista, assim imaginado porque se passam tardes inteiras a apanhá-lo suspenso no ar ao subir (ou melhor, descer) as rochas da praia; o médico, profissão que saltou uma geração, e se deposita naquele que achamos tender para as notas brilhantes; o surfista profissional, apresentador de um programa desportivo e secundado pela artística fotografia da prima mais velha; o político, para aquele que ainda não se revelou bem para além de ser um exímio falador aos dois anos; o gestor para o jogador ímpar de entre todos; um lugar, algures na comissão europeia, para a catraia que gosta de mandar; o advogado, porque toda a família precisa de um e tem de ser um que siga as pisadas dos pais; a pintora, agora a mais sensível e futura criadora de ilusões em tinta; o cantor, não porque cante no presente, mas porque nos enche a alma (e o cérebro) a chamar pelo pai; o “chef de cuisine” para o menino sonhador cuja sensibilidade nos encherá a vida de aromas e sabores e finalmente, mas não por fim, a escritora, que tanto brinca com as palavras, a atribuição da responsabilidade de as escolher, certas e certeiras e por no papel histórias de cada um e todos nós.

Conversas. Felizes. Daquelas que se têm com quem gosta de conversar. E como são importantes os sonhos partilhados. E como é importante ter quem sonhe para nós e ter com quem sonhar o futuro."

Obrigada: Catarina (fotografa), Henrique (surfista), Gonçalo (médico), Maria (escritora), Mateus (gestor), Afonso (advogado), Mariana (pintora), Rita (comissão europeia), Vasco (”chef- de-cuisine”), Francisco (cantor), Duarte (político), Miguel (alpinista) e João Miguel (futebolista) por existirem na minha vida.

Terça-feira, Setembro 27

Assim...


Ilustração de João Rodrigues

Quarta-feira, Agosto 24

Hoje


Mesmo escrevendo, há coisas que um espanta-espíritos não é capaz de levar para longe.
E assim, ficam em nós. Guardadas.

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